sexta-feira, 17 de junho de 2011

Lealdade

Pegou a maleta amarela e foi para sacada. O cheio da maresia a extasiava, claro. Tantos anos longe das ondas e do vento que salpicava as gotas no seu rosto... Me acariciou. O mar estava convidativo. Não estava frio, apenas mais uma noite de verão sozinha. Abriu sua maleta e seu computador deu boa noite enquanto observava o início do eclipse. Acabou seu trabalho e olhou mais uma vez para a água. Estava calma. Então ela pensou: por que não? Vestiu seu biquíni e foi à praia. Estava deserta. Agora, o mar não parecia tão amigável. Pousou o pé na água: morna. Olhou para seu apartamento enquanto as ondas lambiscavam seus dedos. A luz estava acesa.
Mergulhou quando a água chegava em sua coxa. Estava sentindo uma coisa estranha. Como um pressentimento.Ruim, muito ruim.
Depois disso, uma onda a engoliu e a correnteza a hipnotizou. Estava na arrebentação. Algumas gotas começaram a cair e ela não conseguia voltar. Outra onda a envolveu violentamente. Quando conseguiu chegar à superfície a chuva já a agredia. O mar estava com raiva da intrusa. E a engoliu mais uma vez.
A esperei, mas ela não voltou.  O céu já estava escuro por causa do eclipse. Uma cabeça emergiu da água por alguns segundos. Fiquei paralisado. Não tinha o que fazer. Queria chorar.
Desta vez, ela não voltou. Depois de uns dois minutos, nada. A luz já começava a voltar quando descobri que a porta estava aberta. Desci pelas escadas. O porteiro estava dormindo. Atravessei a rua, entrei na água. Nadei por alguns minutos. Uma onda me fez girar com violência. Quando eu era apenas um filhote, meu pai, depois de devolver um graveto ao seu dono, me disse que eu tinha que, se meu dono fosse capaz de dar a vida por mim, eu deveria dar minha vida por ele. No caso, por ela.
Fui parar a poucos centímetros dela, num lençol de areia submersa. Ela estava de olhos abertos, mas não estava acordada. Estava muito cansado para voltar à superfície, mas, pelas águas turvas, vi a lua retornando ao seu posto. E minha alma indo embora, em direção à ela. Até que uma força não sei de onde empurrou meu corpo, a essa altura sem vida, para os braços de minha dona.
Algumas horas depois, os nossos corpos foram encontrados. Fomos sepultados juntos. E ninguém presenciou nosso velório.

É sempre bom saber que alguém morreria por nós

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