terça-feira, 6 de setembro de 2011

Fios de Açúcar

Passo na frente da padaria, morto de fome. Sento no balcão. Espero. Espero. Espero. Espero. Passando-se eternos 8 minutos, a moça vem me atender. 
- Posso ajudá-lo?
- Sim, por favor. Quero um cappuccino.
- Canela?
- Sim.
- Mais alguma coisa?
Pelo tempo que demoraram a me atender, imagine para entregar meu pedido?
- Não, por agora, só isso.
Ela sorriu e voltou à cozinha.
Não sei por que estou preocupado, mas estou. Estou preocupado com tudo. Fui despedido, estou em dependência em 5 matérias na faculdade, não faço a menor ideia de como vou me virar. Você pode pensar que é simples, posso pedir ajuda aos meus pais. Não. Eu fui o único que sobreviveu. Nem minha mãe, meu pai, meu irmão e minha irmã... Me pergunto, às vezes, por que não fui com eles. 
-Aqui está senhor.
Dei um gole. Para quem não comia desde as 6 da manhã, parecia o manjar dos deuses.
Poderia até me queixar da vida para mim mesmo, mas tento não fazê-lo. Não tenho paciência.
Claro que vou arrumar um emprego, claro que eu vou morrer, um dia. Se tivesse um último desejo, seria: "Me mate logo, de uma vez!". Não pense que eu me mataria, não sou tão corajoso, mas já não tenho mais motivos para lutar. Consegui uma bolsa na PUC para jornalismo, mas agora, desde aquele dia, não sinto mais vontade de nada.
Paguei meu cappuccino e fui para o metrô. Adoro aquele lugar. As pessoas parecem tão distantes... Mas não é isso que me atrai. É que eu gosto mesmo de metrôs. De andar em metrôs. Quando você fica alguns minutos sem ver o céu, parece mais contente com sua presença. Mesmo nublado. Mesmo chovendo. O centro da cidade tem muita gente, muitas preocupações, muitas felicidades, muitos amores. No vagão, as pessoas parecem distantes, com jornais, com livros, fones de ouvido, ou fitando o horizonte.
Você conhece muito da pessoa só por um olhar, por um sorriso ou por um sussurro. A maioria das pessoas não sabem interpretá-los corretamente, mas essa é melhor parte de lidar com elas. Acham que conseguem esconder o que estão sentindo. Acho isso engraçado.
O metrô parou, desceu quase a metade do vagão, e consegui um lugar para sentar. Sei por que fui demitido. A filha do editor disse que eu "cantava" ela. Provavelmente, não sou o primeiro estagiário que passa por isso. Larissa acha que todo mundo a quer. 
Não posso negar, ela era sim bonita. Mas eu não a vi mais de duas vezes pelos 3 meses que trabalhei lá. E nunca me interessei. Não comentei, não olhei. Enfim...
Se eu me livrar das notas vermelhas com certa folga, talvez me contratem de novo. 
Agora que parei, fiquei com fome. Tomei uma xícara minúscula de cappuccino e me iludi. Acho que Gabriela errou dessa vez. Fome não é psicológica. 
Gabriela é uma menina da faculdade. Branca, com os cabelos e olhos castanhos. Não é das melhores alunas. Está sempre nas dietas mais estranhas para perder quilos inexistentes.
Minha estação chega. Pego minha mochila saio do vagão. Subi pelas escadas.Olho para para o céu, de um anil infinito, e sorrio.Encontrei uma mulher chorando, num banco. Um homem de terno, aparentemente bravo, segurando uma moça pelo braço, agressivamente. Um homem, alto, esguio, cheirando a algodão doce, olhou para mim e sorriu. Sorri de volta. A praça estava bem vazia. 
Resolvi sentar num muro de blocos nus, brilhando à luz do luar. 
A água do chafariz era a única coisa que se fazia escutar, o que é estranho, por que eu geralmente só ouço a buzina e freios dos carros rasgando a via principal. Assim, ela passa. As pernas se adivinhavam em uma calçar justa, negra, contrastando com o asfalto. O barulho do salto começava a se fazer ouvir, ecoando em minha mente. Um casaco preto, uma blusa mal abotoada, cor do ébano. Foi até o meio da praça e sorriu. Os faróis dos carros me ajudaram a achá-la. Começou a chover de repente, com um raio partindo a escuridão no céu. Ela recebeu as gotas de chuva em seu rosto. Parada, de olhos fechados, apenas sentindo o contato frio das gotas quebrando contra sua pele. Passou os dedos pelos cabelos curtos. Fechei os olhos para aproveitar a chuva também. Quando abri, uns minutos mais tarde, ela tinha sumido, e eu estava sozinho na praça, ensopado.

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