sábado, 17 de setembro de 2011

Fios de Açúcar

Sempre, todo dia, vejo as mesmas pessoas, nos mesmos lugares. Todo dia a mesma coisa. Meu nome é Anne,   tenho 18 anos. Passei pra moda na Candido Mendes, e tenho que me despencar de Engenho de Dentro pra Ipanema de segunda a sexta. Não paro em casa. Da faculdade vou pro trabalho (em Jacarepaguá) , depois pro ponto de ônibus, depois pra casa. Tudo isso em cima de um scarpin ingrato, de um blazer grosso e quente debaixo do sol de 40º do Rio. 
Mas, como eu ia dizendo, eu não caí na rotina, mas sim mergulhei nela. Deve ter o quê? Mais de 1 e meio que não vejo meus pais, que não paro, que não descanso. Que não faço nada além de trabalhar. Minha mente está a mil desde quando, há mais de um ano, recebi a notícia que passei pra moda. 
Só pra melhorar o dia, errei a porcaria do ônibus. Droga.
Toda vez que entro no MSN/Skype/Facebook e companhia, as pessoas falam "Nossa, como você está sumida!" Não estou sumida, estou no mesmo lugar que sempre estive. Sempre.
Hoje, pra variar, não vou desperdiçar a uma hora antes do expediente começar que sempre espero lá, na recepção. Plantada. E que sempre me arrumam alguma coisinha pouca pra fazer: "Anne, arruma esses arquivos, é rapidinho!", "Anne, agende minha reunião, por favor? É bem rapidinho!".
Estou rumando à Barra. Eu trabalho lá há quase 3 anos, por que mesmo antes de completar a maioridade, já comecei a trabalhar. Nunca faltei. Nunca cheguei atrasada. E tenho propostas de emprego fora dessa empresa na qual sou secretária. O que tenho a perder? Vou tomar um café na Starbucks, no Barra Shopping. 
Cheguei, pedi, esperei, peguei um táxi, cheguei atrasada, pedi demissão e sorri, quando entrei no táxi de novo. Aquela empresa vai falir sem mim. Era eu quem pagava as contas, agendava reuniões, entregava recados...
Liguei para empresa que me ofertou emprego ontem, com um salário um pouco mais alto, mas um cargo mais elevado. Não pensei duas vezes em aceitar, só tive que dar meu jeito pra pedir demissão. Enfim, uma mudança. Acho que, já que a carga horária é menor, vou adotar um cachorro. 
Acho não, vou. Tô indo, até. Quero um pastor alemão macho, bem saudável! O nome dele? Não sei... Mas tenho que decidir logo, por que logo depois de escolher, vou para o veterinário.
Voltei pra casa, e pedi ao José, o meu tio e dono do carrinho de algodão doce e pipoca que ronda Engenho de Dentro, para sugerir um nome pra ele. Adoro ele, ele é um doce, trabalha com açúcar, tece fios de açúcar rosa e pendura em um carrinho amarelo, vermelho, azul e dourado, fazendo a alegria de muitas crianças, e fazendo adultos ingerirem açúcar, corante vermelho e pedacinhos de infância. Total nostalgia quando tio José chega. Trouxe comigo a ficha do cachorrinho sem nome, com a parte "nome" em branco. Tio José era ótimo com nomes e conselhos.  
- Oi, tio!
- Oi, Anne! Eu estava pensando em você hoje. Como você está? Aceita um algodão doce? A Ágata diz que são pedacinhos de nuvens, que quando você ganha um, essa pessoa gosta muito de você.
- A Ágata? Sua filha? Quantos anos ela tem?
-Seis, mas já é boa com palavras. 
- Vim saber se você tem um nome pra ele-disse, sacudindo sem nome no colo
- Uhm... Acho que essa mancha bege no seu peito lembra mel. Que tal?
- Mel? Nada a mal. Eu sabia que você ia saber o nome certo pra ele.
Peguei o algodão doce, com meu nome escrito em caneta pilot no plástico que envolvia o pedaço de nuvem rosa. Uma caligrafia imatura, porém bonita. Sorri.
E ela passou, de vestido nas canelas, negro como seus cabelos. Olhou pra mim, e pensei que fosse derreter.  Sorriu. Sorri de volta. E ela sumiu entre as luzes dos faróis e setas.

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